Seu cristal de bem-estar
e a energia do sistema capitalista
A última moda dos ovos vaginais prometem regular ciclos menstruais e até questões hormonais, também dizem trabalhar energias femininas; os rolos faciais usam as “propriedades” de cada pedra para adicionar valor ao objeto, como por exemplo, amenizar rugas; e até garrafas de água, feitas para acoplar um cristal no fundo, prometem captação de energia e cura por meio dos cristais. Porém, do outro lado da moeda, a cadeia produtiva das pedras preciosas está ligada à condições humanas miseráveis em África, Brasil, Índia e China, os maiores exportadores do mundo.
*** a intensão do presente texto não reside em questionar práticas de espiritualidade e muito menos do universo feminino, e sim, falar sobre a cadeia produtiva das pedras preciosas***
É muito comum vermos por aí influencers de bem-estar e sustentabilidade fazendo propaganda desses apetrechos, ou mesmo lojas e negócios ligados ao movimento desperdício zero, veganismo, beleza natural, entre outros seguimentos de sustentabilidade, comercializando tais objetos.
Sem adentrar às questões espirituais que é de cada um, questionando a realidade concreta da mercadoria CRISTAL, a transparência sobre a origem ou caminho percorrido até chegar em suas mãos, não estão presentes nas relações de vendas e propagandas. E isso tem uma razão!
A cadeia dos cristais ou “pedras preciosas” paga centavos lá na ponta para quem está sob seus túneis, localizados esmagadoramente em países da periferia do sistema. Enquanto isso, em 2018 o mercado de pedras preciosas, que teve incremento de 40% das atividades, movimentou mais de 7Bilhões no comércio mundial, ocupando o 402º lugar de produto mais negociado no mundo. Opa! Tem feijão nesse angu… e muito! Liguem as anteninhas.

É importante lembrar que não existem evidências de que os cristais funcionem para curas metafísicas ou que tenham fluxos energéticos associados aos seus usos.
Extração “Artesanal” em África
Em setembro de 2019 o The Guardian publicou uma extensa matéria que nada tem de bem-estar quanto a sua tradicional cadeia de produção, aos moldes capitalistas de extração, com mão de obra barata e em péssimas condições humanas e ambientais.
O lócus em que se concentra a matéria do jornal britânico em África é considerado um dos mais pobres do mundo, que ao lado da Índia, Brasil e China é responsável pela maioria da produção e exportação global dos cristais, feita de forma “artesanal” como preferem dizer algumas marcas, ou seja, movido a suor humano, ou mais especificamente, infantil.
E em um país onde a infraestrutura, o capital e a regulamentação do trabalho são escassos, são os corpos humanos, e não as máquinas, que puxam os cristais da terra. (The Guardian, 2019)
A maioria das casas em Anjoma Ramartina não tem eletricidade, água corrente, telefone ou conexões de rede. A desnutrição é comum. Segundo o Banco Mundial, cerca de 80% das pessoas fora das cidades de Madagascar vivem abaixo da linha de pobreza de US $ 1,90 por dia (The Guardian, 2019)
Enquanto algumas grandes empresas de mineração operam em Madagascar, mais de 80% dos cristais são extraídos “artesanalmente” — o que significa que pequenos grupos e famílias, sem regulamentação, recebem preços muito baixos.(The Guardian, 2019)
De acordo com do dados do departamento de trabalho dos EUA, 85mil crianças trabalham nos túneis de caça às pedras em Madagascar (The Guardian, 2019) para o bem-estar ocidentalizado poder banhar suas pedras ao sol, enquanto estas estão sob a terra, com dificuldades de respirar.
Além das questões sociais que envolvem essa atividade de mineração, as questões ambientais são sérias e agudas, conformando o binômio bem conhecido por nós — vulnerabilidade social e destruição ambiental (tenso!) - aliás, regiões de garimpo e exploração minerária se conformam desta maneira.
Os espécimes de Madagascar exportam alguns cristais em bruto, mas sua oficina em Antananarivo também trabalha as pedras, cortando-as em formas, retificando e polindo as faces. Da perspectiva de Liva Marc, refinar a pedra em Madagascar significa criar empregos estáveis e manter mais do valor dos cristais no país. Com pedras exportadas em bruto e depois esculpidas na China ou nos EUA, quase nenhum lucro ficou em Madagascar. (Liva Marc Rahdriaharisoa para o The Guardian, 2019)
A floresta de Madagascar está seriamente desaparecendo à medida que a atividade minerária se expande na região, em busca de mais e mais pedras que vão para o ocidente. Outras atividades também estão ligadas à devastação ambiental da ilha.

Em 2018, os países que tiveram maior valor comercial em importações do que as exportações de Pedras Preciosas foram Estados Unidos (US $ 731 milhões), França (US $ 449 milhões), Índia (US $ 265 milhões), Hong Kong (US $ 241 milhões) e Itália (US $ 203 milhões). *Dados do observatório de economia complexa do Massachusetts Institute of Technology
muitos clientes estão procurando, porque a medicina com cristais é muito popular agora. Como a terapia, os cristais de crença têm poder de cura, sabe? É muito — como você diz? — na moda.” (Liva Marc Rahdriaharisoa para o The Guardian, 2019)
“Talvez eles [lojas nos EUA] não expliquem isso para seus clientes. É negócio para eles, eles querem dinheiro. Eles nunca dirão: ‘Eu compro isso por US $ 1 e vendo por US$ 1.000’ ”, ele riu,“ mas essa é a realidade ”.(The Guardian, 2019)
Na reportagem do jornal, uma marca bastante famosa de garrafas com Cristal, que possui em seu slogan o comércio justo e sustentável, revela que não tem como controlar a origem e condições de trabalho de onde seus insumos são comprados.
“sabem que não queremos que nosso dinheiro seja destinado a uma mina que usa trabalho infantil. Eles sabem todas essas coisas. ” Atualmente, ela disse, eles consideram a transparência uma alta prioridade e esperam desenvolver relacionamentos com minas individuais até 2020, mas não podem oferecer garantias concretas sobre as condições atuais de seus mineiros.(The Guardian, 2019)
Te pergunto: realmente usar algo que emprega crianças, que provoca mortes por soterramento de famílias inteiras, que circunscreve a atividade de trabalho de populações inteiras sob a terra, sem poderem respirar, mortos por asfixia, de uma industria que movimenta bilhões e que deixa rastros de buraco e destruição, florestas desmatadas, que paga centavos para quem arrisca suas vidas sem opção, com a promessa de que isso gera cura ou benefícios energéticos é realmente sustentável? Para quem?
No Brasil temos histórias muito parecidas
O mesmo rastro de pobreza, más condições de vida humana, são encontrados em garimpos de cristais espalhados pelo Brasil. Também invasões de terras indígenas, mortes, garimpos ilegais que parecem legais (veja um dos vídeos da referência!), trabalhos análogos a escravidão e infantil, destruição e degradação de florestas e áreas protegidas, são resultados que fazem parte desta atividade no país. Montanhas abaixo que não existirão nunca mais!!
Conforme percorremos a cadeia produtiva, o valor das pedras vai se multiplicando a cada elo completado, chega a dezenas de vezes o valor inicial. O destino final são as pessoas interessadas terapias alternativas, yoga, alimentação natural, espiritualidade da nova era, entre outros (The Guardian, 2019). Todo mercado tem seu público, bem circunscrito e definido.
O que choca não é a espiritualidade associada a estes minerais, e sim, a falta de questionamento das pessoas que dizem trabalhar com expansão de consciência em relação a esta questão específica da origem do material. Claro que isso é um dado nada “obrigatório”, que todos os consumidores devam saber.
Contudo, os negócios tem um pouco mais de obrigação em checar informações e alinhar os produtos a seus princípios. Afinal, ao buscar um negócio sustentável, a confiança das pessoas que validam a marca reside justamente nessa curadoria e cuidados já elaborados, por algo que a própria marca diz oferecer em seu discurso sustentável.
Negócios que estão ligados às questões essenciais de sustentabilidade e estilo de vida sustentável, comercializarem materiais tão insustentáveis e com processos tão violentos como este, estão cometendo um grave erro de análise e alinhamento, e precisam rever ou seus critérios, ou seus discursos.
GARIMPO E SONHO, uma relação histórica
A atividade de Garimpo é algo que lida diretamente com os sonhos de famílias e pessoas que acreditam que encontrar uma pedra preciosa pode mudar ou arrumar sua vida para sempre. Isso desde que o mundo é mundo. As histórias em Minas Gerais que nos contem!!!!! Algumas histórias revelam que isso acontecia muito.
Porém, é uma roleta russa, um “jogo” como muitos garimpeiros falam. Vide a história de Serra Pelada, uma das mais violentas e maiores minas de ouro a céu aberto no mundo (tem alguns garimpeiros falando sobre isso no vídeo que postei abaixo!).
*Um pouco de utopia (?): em um mundo justo, de igualdade social entre todos os humanos e espécies, não existem Serras Peladas.




Os custos da destruição social e ambiental em todos os lugares e populações que lidam com esta atividade são incalculáveis. Montanhas e Florestas que somem, vidas soterradas e crianças trabalhado feito sei lá o quê. Cenário este, que não me parece valer uma energização de água ou uma possível diminuição das rugas na região dos olhos!
Hoje, ética e transparência na cadeia produtiva podem nos ajudar a saber o que estamos financiando direta e indiretamente. Saber dos processos aplica a dimensão política às nossas escolhas.
Também, nos ajuda a criar coerência nos negócios que tem em seu DNA a tão esfoliada bandeira da sustentabilidade. Esses espaços tem grande responsabilidade em saber e informar suas procedências! É exatamente essas duas dimensões -transparência e ética, que as cadeias produtivas do sistema que eles dizem querer mudar, escondem em suas entranhas; ]
Requeremos neste momento de muitas informações para entender as complexas relações que estão por detrás dos produtos, alimentos, e serviços que consumimos e assim financiamos. Fato, nos debruçar sobre isso é revolucionário.
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